Feminicídio: O crime perverso e evitável, que cresce no Brasil

01/04/2026 | 11:04

Em uma década da tipificação desse crime, o número de casos já aumentou quase 190%.

Em 2025, ano em que completou dez anos da tipificação do crime de feminicídio, o Brasil registrou o maior número de casos já contabilizados no país, com um total de 1.548 mulheres assassinadas em contextos atravessados por desigualdades de gênero. Uma média de 4 vítimas por dia. Os dados fazem parte do indicador do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) – alimentado mensalmente pelos estados e Distrito Federal – do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

De 2015, quando foram registrados 534 casos, para 2025, houve um crescimento de 189,89%. Ao todo, em uma década, foram 13.474 mulheres mortas por feminicídio. Os números ficam ainda mais alar mantes quando observamos os registros das tentativas de feminicídio.

Em 2025, o país registrou 3.814 casos de tentativas de feminicídio. Uma média de 10 vítimas por dia. Em 10 anos, de 2015 – quando foram registrados 480 casos – para 2025, houve um aumento assustador de 694,58%. Ao todo, nesse período, 20.695 mulheres sofreram tentativa de feminicídio no Brasil.

Uma década da lei

Dez anos após a criação da lei, o avanço é lento e os desafios são persistentes. A lei representou um avanço importante ao reconhecer que as mulheres não são mortas “por acaso”, mas em contextos atra vessados por desigualdades de gênero, ampliando a visibilidade das ocorrências, mas também expondo a dimensão real da violência, deixando nítido que os padrões culturais profundamente arraigados de uma sociedade patriarcal não são transformados apenas com legislação.

A ascensão da extrema direita e a escalada da violência

Para a assistente social, mestre em Políticas Sociais pela UFES, Emilly Marques, esse aumento do feminicídio no Brasil está diretamente relacionado à ascensão da extrema direita no país nos últimos anos.

“Todo esse avanço conservador da extrema direita no país traz um discurso de ódio às mulheres, de ameaça às nossas vidas, aos nossos direitos conquistados. É um discurso que vai contra as pautas históricas dos movimentos de mulheres em defesa da nossa liberdade, autonomia e diversidade”, afirma a pesquisadora, que completa, “esse discurso de ódio reforça e autoriza a cultura da violência contra as mulheres”.

Além disso, a redução drástica no financiamento das políticas públicas de proteção às mulheres e o incentivo ao armamento da população nos governos anteriores também contribuíram para essa escalada da violência. “Essa perspectiva da extrema direita de descontinuar o investimento em políticas públicas e armar a população com discurso de defesa pessoal é uma grande ameaça à vida das mulheres. Diversas pesquisas no Brasil e no mundo confirmam que mais armas em circulação representam maiores taxas de violência. Não é essa proteção que irá garantir a vida das mulheres. Nós defendemos políticas públicas efetivas de prevenção e proteção, com financiamento permanente, uma rede que de fato funcione de forma integrada e dê conta de parar o ciclo da violência antes do feminicídio acontecer”, ressaltou Emilly.

Red Pill

Não só os números do feminicídio aumentaram, como os registros de diversas formas de violência contra as mulheres vêm crescendo vertiginosamente. Em 2025, foram 21.760 vítimas de estupro no Brasil. Uma média de 60 mulheres por dia. Para Emilly, “esse aumento é resulta do de discursos que transformam misoginia em meme e piada, que normalizam o ódio e a desumanização das mulheres e que vem sendo propagados nas redes por grupos Redpill, que é fruto do avanço da extrema direita. Desconstruir essas masculinidades opressoras é fundamental pra garantir o respeito à vida das mulheres”.