O relato é da bancária capixaba Victória (nome fictício), vítima de importunação sexual no trabalho.
Além do toque sem consentimento, Victória enfrentou outras formas de violência, como a cobrança de metas bem acima do estabelecido para os colegas na mesma função e trabalho supervisionado excessivamente. Os assédios moral e sexual levaram Victória ao adoecimento. Ela chegou a ficar afastada por meses para tratamento psiquiátrico. Hoje retornou ao trabalho, mas segue em terapia para conseguir se levantar todos os dias.
O caso de Victória não é um relato isolado. Todos os dias o machismo violenta mulheres no Brasil, seja no ambiente doméstico, público ou até no trabalho. Escancarado como um toque, um ato sexual sem consentimento ou de forma sutil, como cantadas e comentários desrespeitosos, a violência no trabalho adoece e precariza a vida de milhares de trabalhadoras.
A culpa
Quando essa violência acontece é comum a vítima se auto questionar: “o que fiz de errado para ele achar que podia encostar em mim? Acho que usei uma roupa inadequada para o trabalho ou dei confiança demais.” Sentir-se culpada é um sentimento comum às vítimas, como explica Roberta Belizário, professora e doutora do Departamento de Psicologia Social e Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

“A violência contra a mulher no trabalho é uma extensão do que ocorre em outros ambientes. As expressões não são tão distintas: são gritos, insultos, ameaças, assédio. Muitas mulheres não reconhecem que estão em situação de violência porque introjetam essa opressão como natural. ‘Eu não devia ter passado ali, não devia ter ficado sozinha com ele na sala...’ Até nos casos mais extremos, como um estupro, ela se sente, primeiro, culpada. Isso é uma violência a mais”.
Marcas
Junto com o medo do julgamento moral surge a vergonha. Na maioria das vezes, as vítimas preferem o silêncio à denúncia. Raiva, impotência, tristeza são sentimentos que invadem essas mulheres, que sofrem caladas.
“Não existe grau de violência quando falamos sobre o impacto que causa na vítima. Uma passadinha de mão pode ser tão drástico quanto um estupro. Mulheres vítimas de violência no trabalho podem desenvolver até um quadro de estresse pós-traumático, com sintomas como boca seca, palpitações sempre que pensa em voltar ou que chega perto do trabalho. O rendimento cai, ela se isola, tem comprometimento cognitivo e pode desenvolver um quadro de irritabilidade”, enfatiza Roberta.
Com Victória foi exatamente assim. Até hoje a bancária segue em tratamento. “Mesmo após a licença médica, não desejo mais ir para o banco. Executo minhas atividades dentro daquilo que consigo. Me sinto desrespeitada e desvalorizada. Parece que a mulher tem que provar que é muito mais competente do que os homens para conseguir ser respeitada, ascender de cargo”, desabafa Victória.
Prevenção e enfrentamento
Enfrentar a violência contra as mulheres requer esforço coletivo. O primeiro passo é colocar o tema na roda de conversa no ambiente de trabalho. É importante falar sobre o assédio, os insultos, os gritos, os toques não consentidos e todos os outros sinais de violência.

“É um trabalho de mudança cultural e isso passa pelo debate sobre os papéis sociais de gênero. Isso precisa ser feito incessantemente antes de sermos vítimas. Precisamos trabalhar a prevenção, discutir essa questão e reconhecer os sinais de violência”, destaca Roberta.
Denuncie
Diante de qualquer ato de violência, as bancárias devem denunciar ao Sindicato. Por meio da Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho, elas recebem apoio e atendimento psicológico: 27 99961-4185 ou 27 3331-9952. Denúncia anônima pode ser feita no Canal de Denúncias (bancarios-es.org.br).
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Dados
Cerca de 11,1 milhões de brasileiras já receberam cantadas e comentários desrespeitosos no ambiente de trabalho. O local de trabalho, que deveria ser seguro, é o segundo lugar em que as mulheres são mais assediadas, ficando atrás apenas da rua.
5ª edição da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil - Fórum Brasileiro de Segurança Pública e a Datafolha - Fevereiro de 2025.

